História passageira
Nenhuma ficção supera a vida real
O uber – Marcelo – perguntou minha profissão. Expliquei brevemente, e ele comentou que estava se alfabetizando via IA. Teve pouco estudo e agora estava pedindo para a inteligência exercícios para aprender a escrever (calma, turma, não é um texto sobre IA, Deus nos livre a todos de mais um post sobre isso). Tinha lido um livro na vida, um único livro, mas muito bonito. “Nós dois na lua” é um romance, e ele foi me narrando a trama em detalhes. Era um bom contador de histórias, o Marcelo. Como o trajeto ainda era longo, quando ele terminou de falar do livro, fiz a sinopse de “Em busca de Atílio” para ele. Algo me dizia que poderia interessá-lo.
Comecei: a Isabela teve um sonho muito vívido e muito intenso com um cara, um menino que não via há tempos, e acordou mexida por ele. O problema é que ela estava noiva do Guilherme e não sabia por onde andava Atílio, e o enredo é essa busca etc. Marcelo para no semáforo, me olha pelo retrovisor e declara:
- Se eu te contar a minha história de amor, você não vai acreditar.
Ele morava em uma vila muito pobre em Pinhais quando uma família se mudou para lá. A menina que chegou era esquisitinha, magrinha, chamava Silvana. Ela tinha 7 anos, ele, 12. Brincavam juntos, pé no chão, bolinha de gude. Quando ele fez 15 anos, se envolveu com a Margarida. Eles foram morar juntos e, em dada noite, Marcelo acordou e viu SIlvana ao pé da cama.
—Marcelo, eu gosto muito de você. Fica comigo, eu te amo!
Marcelo esfregou os olhos, era um sonho muito real. Ficou naquele torpor do que tinha acontecido, se foi uma alucinação ou se recebera uma visita espiritual, mas logo de Silvana!? Ele a via como uma irmã mais nova praticamente, não como mulher.
Uns dias depois, ele a encontra na rua e, na hora de cumprimentá-la, sente um perfume inexplicável (seria de baunilha, nossa narradora borrifa a pergunta no ar?). Era um cheiro muito envolvente e despertou nele uma paixão arrebatadora. Ele não parava de pensar nela. Mas ele tinha Margarida e era um moleque de rua, que gostava de farrear.
Guardou aquele sentimento por vergonha de compartilhá-lo. Continuou entre idas e vindas com a Margarida. Comprou um rádio potente, e quando via que Silvana estava em casa, ligava-o nas alturas, só com música romântica, Paulo Ricardo, Zezé di Camargo e Luciano... Aí ele abaixava e, surpresa!, a menina estava escutando as músicas dela em volume ainda maior.
Ele ficava com muitas meninas, mas nada de esquecer Silvana. E também vivia um ioiô com Margarida. Em um Natal, as famílias passaram juntas e, quando começou a tocar uma música de Gian e Giovanni, Marcelo tirou uma menina chamada Mara para dançar, e logo Silvana foi embora. Estava tentando tocar a própria vida.
Um dia, uma tia, com quem ele estava brigado, o chamou para ir ao mercado porque tinha algo importante para conversar com ele. A danada foi, fez as compras, e só na volta revelou:
— Marcelo, a Silvana gosta de você!
A vertigem que ele sentiu o obrigou a descer da bicicleta. Ele perdeu o chão, o ar, o rumo. O coração não sossegava. Chegou em casa e escreveu uma carta para ela, revelando todo seu amor.
Logo, Silvana o respondeu. Também gostava dele. No dia do Natal, saiu correndo para ninguém vê-la chorar. Ficou pálida de tristeza. Mesmo assim, sabia que era difícil ficarem juntos pelas circunstâncias. Marcelo pediu para que ela seguisse o coração na decisão. Na mesma época, o patrão o mandou para o Norte do Paraná, e antes de ir, ele comprou dois presentinhos para a mãe dele entregar para a amada depois que ele tivesse viajado. Mas o que a velhinha fez? Claro, se antecipou e levou para ela antes de ele ir.
No dia da partida, a irmã de Silvana vai chamá-lo a pedido da irmã. Eles saem para o quintal para conversar, caía uma tempestade, e na hora de se despedirem, trocam o primeiro beijo – abaixo de chuva e dos olhares da vizinhança.
O amor é borbulhante. Estavam apaixonadíssimos. Mas, como uma cartomante avisou, Marcelo não podia errar com Silvana, ou então ela o deixaria. E a cartomante acertou. Eles ficaram juntos por 8 meses. Quando foi se casar, Silvana entregou um convite dourado para a tia dele (lembram da música do Natal?). Não tinha um cantinho rabiscado no verso, mas Marcelo entendeu o recado.
Ele também se casou, se descasou, teve até um filho com a Margarida (concebido no dia em que ele terminou definitivamente com ela para assumir o namoro com Silvana, hehe). Faz 28 anos que tudo isso aconteceu, mas ele até hoje a ama. A ponto de sentir carinho pelo marido dela e querer agradecê-lo por ele ter honrado essa mulher da forma como ela merece.
Pedi autorização para ele para escrever essa história e compartilhá-la. Às vezes, ficção e realidade se misturam, mas ter vivido um amor assim, inesquecível, supera qualquer palavra usada para registrá-lo.
Esta foi a minha cartinha abaunilhada, cheia de amor e de afeto. Se gostou, inscreva-se para não perder nenhuma.
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Bela história, aventurosa e muito bem contada por você... Parabéns 👏🏽 👏🏽 e obrigado 🙏🏾